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Segunda-feira, Abril 26, 2004

Debruço-me no parapeito dos teus olhos
lá em baixo o mar escarlate veneno em veia
alonga-se-te à volta da cintura
como um abraço de feridas

Vêm morrer-me às mãos as tuas lágrimas
e a voz presa na garganta lembra um grito mudo
de esperança no escuro

Penso em diluir-me no teu choro
e embalado recordar a forma mais bonita de
pedir perdão

in 'Da tua pele quase nua', 2004.
dbacante @ 3:20 PM

Segunda-feira, Abril 19, 2004

Vou sentar-me neste canto da cidade e assistir às horas como quem olha para um desfiladeiro de sensações. Vou tentar concentrar-me na ideia doentia da fixação dos instantes marcantes da vida, aqueles que julgamos irreversíveis. Geralmente, medimos a felicidade pelas nódoas de dor que nos macham a cortina dos olhos. Há quem tenha a estranha mania de apagar feridas reacendendo outras. Medos antigos. Perseguições cegas, inexistentes, tão verdadeiras quanto as que verdadeiramente existem. Confuso? Experimentem por dois segundos olhar a vida da pior maneira possível. Imaginem que de um momento para o outro tudo resolve dar para o torto. É só assim que um sorrir se inaugura nas manhãs indecisas de calor. A certeza é uma ideia vaga de nostalgia de outras manhãs, em que os rostos ainda sem barba, gelavam junto a praias desertas.
Como aquela manhã em que acordei dentro do carro, junto à praia de Milfontes. O corpo dorido pelo frio e por uma terrivel dor de cabeça. Estava tão atarantado que acabei por bater num outro carro. Saí fora do meu para ver os estragos. A família do outro carro também. Fiquei tão assustado que parecia morrer. O meu rosto pouca barba tinha. O homem, perto dos cinquenta anos, olhava ora para a minha cara imberbe ora para o seu para-choques com alguns riscos, provocados pelo meu Talbot. Senti um ligeiro tremor de pânico. As pernas apontavam um cansaço nunca antes experimentado e finalmente me dei conta que tinha acordado para a realidade. O homem como que adivinhando a metamorfose ocorrida em mim nesse instante, resolveu nada fazer, perante uma furiosa admiração da sua família. Disse-me Deixa lá isso rapaz, e virou costas entrando no carro. A sua família praguejava como raios revoltos em dia de tempestade, não acreditando a desculpa por minha desordem. Eu fiquei ali pregado na berma da estrada. O Talbot atrás de mim, juntos vendo a familia a ir, e eu ainda a recordar o olhar doce com que aquele homem me desculpou, e partiu quase a sorrir, convicto de que algo em mim tinha sido mais importante e altivo do que castigar-me ao arranjo do carro.
Essa viagem a Milfontes foi um delírio interno permanente. Saí sozinho de Lisboa. Antes, parei numa discoteca e comprei a cassete Post da Bjork. Escolhi a banda sonora para uma viagem que inaugurava uma liberdade desconhecida. Era o primeiro Verão que fugia assim de Lisboa, sozinho, com o meu primeiro carro. Tinha a carta de condução há dois meses.
Levava bagagem de Verão e uma guitarra velha. No banco do lado direito carregava o Medo do Al Berto, aquele editado pela Contexto, de capa amarela, que comprara há algum tempo na livraria do CCB. A caminho de Milfontes, passei por Sines. Gastei duas horas a andar às voltas. Estava inebriado com a ideia de estar na terra de Al Berto. Olhar ao longe as esplanadas que ele falava nos poemas. O mar sempre vigilante. Uma mescla urbe que nos confundia. Alonguei a viagem a Milfontes, e ía tão cheio de magia que tudo me parecia um sonho. A poesia tinha este poder em mim. Era uma forma de estar, uma permanente entrega num êxtase íntimo, que eu julgava imperceptível a outro alguém, único e raro.
Acabei por encontrar colegas de escola, que acampavam como ciganos num dos parques de Milfontes.
dbacante @ 10:00 AM

Terça-feira, Abril 13, 2004


dbacante @ 2:31 PM

Quarta-feira, Março 24, 2004

A fuligem que sobrou das paixões coleccionáveis
lembrou-te que a vida tem instantes irreversíveis
quando brincamos às escondidas dos sentimentos e atravessamos
o jardim com os olhos fechados para melhor o cheirarmos
fica esclarecido que o perigo é um parente chegado
uma lâmina colada na pele em sangue
uma voz destorcida em melopeias enganadoras

Santa é a mentira que o pecado anunciou tarde demais

Se o corpo fosse um ninho de verbais afagares
nunca as palavras se despiriam à primeira oportunidade

(inédito), 2004
dbacante @ 9:02 AM

Quinta-feira, Março 04, 2004

Trinco-te o lábio
Na hora incerta da tarde.
O gomo açucarado
Dissolve-se nas palavras
Amortecidas num silêncio
De contemplação.
A penumbra do quarto,
No equilíbrio de luz
Que se infiltra pela janela,
Lembra o mediático
Esquecimento da cidade.

Ergo o corpo num adivinhar de voo,
Abro os braços na cegueira da procura,
E entrego-me num mergulho de vácuo.

Descubro então que não existe espaço
Para um outro corpo.
Um molde perfeito, talvez,
Lembra-nos a altiva forma de amar.

Os corpos têm a liquidez das palavras;
Combinamo-las até ganharem sentido.


in 'Dá-me-te', Hugin, 2003
dbacante @ 11:35 AM

Segunda-feira, Março 01, 2004

Ficamos inertes à espera do poema
A estação líquida das chuvas, beijos semeados num fogo de perguntas, sabe-se apenas que nos esperam outras manhãs futuras, as bagagens estão cheias de livros, mataremos a fome de alma em álcool embebido em metáforas, o quão doloroso é ficar à espera do nascimento de um poema, vozes que chegam mas que depressa se afastam, o corpo cercado de desejos e um abraço de afecto, levando o rubor ao céu inesperadamente Inferno. Se mastigas o pecado ou a languidez te desperta a fome de carne, é porque finalmente os dias ficaram maiores na dimensão dos teus sonhos, e já não adormeces com a dúvida de um sol medonho, mas somente um calor que te leva a procurar a nudez como se assim, fosses mais minha. Desconcertante as palavras num discurso evasivo.
dbacante @ 10:20 AM

Terça-feira, Fevereiro 17, 2004

Há três anos...


dbacante @ 11:06 AM

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